Tudo isto começou com o desafio meus agentes locais do Uzbequistão, Turquemenistão e Turquia. Como não sou de fugir de desafios aceitei e fiz as malas para conhecer uma parte da Rota da Seda, ainda pouco conhecida nos roteiros Turísticos mais comuns.
Comecei por Taskent, capital do Uzbequistão, onde me juntei ao meu primeiro parceiro de viagem: o Manuel Marraco, um espanhol de Saragoza, que também é agente de viagens. No controlo dos passaportes foi ele que me localizou e o primeiro a dar-me algumas dicas e explicar que a cidade de Taskent já conta com 2200 anos de história e que guarda o livro original do Corão de Califa Osman.
Quando cheguei fui de imediato surpreendido. Quando se trata de países asiáticos lembro-me logo de uma grande azáfama, de barulho nas ruas, de uma trânsito caótico, carros a apitar, de gente por todo o lado e muito lixo no chão.
Taskent não podia estar mais longe deste cenário típico. É uma cidade complemente limpa, organizada do ponto de vista urbano, com um trânsito moderado, onde as pessoas são muito civilizadas e se respeitam.
Quanto à qualidade dos hotéis, bem tenho que dizer que não é fantástica. No entanto encontrei alguns restaurantes mais modernos e com um serviço razoável.
No dia seguinte segui para Khiva, que fica oeste. A uma hora de voo, esta pequena cidade amuralhada fica apenas a 100 metros acima das águas do mar, num dos extremos do deserto do Kizil-Kum. Sobrevive alimentada pelo canal Palvan. Khiva é uma pequena pérola no oásis de Khorazm, com cerca de 2500 anos. Toda a parte histórica vive no interior destas muralhas. De certa forma, faz-me lembrar o nosso Marvão ou Óbidos. Ali ainda se conservam sinais de outros tempos, como as Madrazas, que eram as escolas da época e que existiam na época mas sempre em separado para rapazes e raparigas.
A aventura continuou e no dia seguinte esperava-me o Turquemenistão. Este seria assim o país 111 marcado nos meus passaportes.
Depois de uma hora de estrada o motorista deixou-me na fronteira. Posso dizer que há mais de 20 anos que não passava uma fronteira assim. Parecia que estava nos antigos países de Leste. Depois de passar por três controlos de passaportes e de malas, teria que carregar com toda a bagagem por cerca de 1km de terra batida, em terras de ninguém, se não me tem aparecido uma boleia até chegar ao controlo das autoridades do Turquemenistão. Aí encontrei mais burocracias, mais papeis, carimbos e pagamento de vistos.
O pior foi quando tive que preencher os formulários de entrada no país, que só estavam escritos em russo. Segui a minha intuição e parece que até deu certo. Até o dinheiro com que entramos no país nos é controlado.
Para este simples ato de atravessar uma fronteira foram precisas 3 horas e só estavam 10 pessoas no cruzamento da mesma…. nem quero imaginar se fosse um grupo grande, como na maioria das vezes me acontece.
Do outro lado da fronteira esperavam-me um guia e um motorista para me receberem e levarem para junto de mais 14 convidados oriundos de 12 países. De relembrar que o meu companheiro Manuel andou sempre comigo e que apesar dos seus 70 anos, muitas vezes era eu que não tinha pedalada para o acompanhar.
A primeira notícia foi que iríamos fazer 800km de Jeep até chegar a Asgabate, a capital do país. O nosso motorista explicou que era uma viagem cansativa, mas que pelo caminho iríamos ter uma surpresa que tudo nos faria esquecer todo o cansaço.
Depois de 600km lá chegamos ao primeiro ponto: A Cratera do Gás. Impressionante, uma cratera similar a um vulcão só que em vez de larva, liberta chamas provocadas pelo gás. Um espectáculo, ali no meu do deserto de Darvasa, que nunca irei esquecer na vida. Não me cansava de contemplar e fotografar. De notar que o Turquemenistão é a 4ª maior potência de gás do mundo.
Finalmente chegamos a Asgabate e a minha alma ficou parva… fiquei meio confundido se estava a entrar em Las Vegas ou no Dubai. Nunca imaginei uma cidade tão desenvolvida, com prédios com arquitectura maravilhosa, uma ostentação típica de um país que tem muito dinheiro gerido por um presidente que quer ficar na história e que na realidade não sabe o que fazer a tanto dinheiro proveniente das receitas do gás.
O Turquemanos não pagam água, luz, gás e renda de casa pelo menos até 2032. O país é gigantesco mas tem apenas 5 milhões de habitantes. Por isso mesmo, não deixam de ter em todos os sítios públicos e mesmo em suas casas uma fotografia com a cara do presidente do país.
Para a minha sorte, a nossa chegada coincidiu com o dia em que se celebrava a chegada da Primavera, tive a possibilidade de assistir às celebrações e de ter um contacto muito próximo com a cultura folclórica e étnica do país.
Deu para visitar a cidade, a mesquita e o mausoléu de Turkmenbasy, uma das maiores obras do país… algo revelador também de uma grande ostentação.
A verdadeira aventura veio nesse mesmo dia pela noite. Fazer a viagem de comboio durante quase 13 horas entre Asgabate e Turkmenbasy na costa do Mar Cáspio. Foi uma noite animada no comboio em que reparti quarto com a minha mala e 3 colegas desta aventura, que tinha conhecido no dia anterior.
Ao chegar ao destino houve tempo para um banho rápido e seguimos para os Canions do deserto de Yangycala. Um misto de sensações entre os olhares tímidos e recatados das pessoas que por ali vivem e a beleza gigantesca das formações rochosas.
Na ponta da pedra mais emblemática da região consegui fazer um dos meus saltos mais extraordinários. Senti-me a voar numa paisagem lunar por segundos.
A correria continuou e depois de mais 3 horas de estradas esburacadas apanhamos um avião com destino a Asgabate, apenas para conexão para Mary. Chegamos pelas 2 da manhã e o despertador tocou passadas 3 horas, para ir já para o aeroporto. A visita a Mary foi muito rápida mas deu para entender a importância desta cidade há milhares de anos na história da rota da seda.
Não havia tempo a perder porque a fronteira do Turquemenistão com o Uzbequistão encerrava às 5 da tarde e ainda tínhamos 6 horas de estrada para chegar com tempo para tratar das burocracias aduaneiras.
Mais uma aventura, embora menos demorada mas com algumas confusões para o meu lado. Desta vez os formulários em russo tramaram-me, enganei-me num zero na soma do dinheiro e desta forma estava a trazer mais dinheiro do que tinha entrado. Valeu-me uma colega da agência do Uzbequistão que tentou explicar a situação.
Embora haja cartazes colados nas paredes a dizer que o suborno é punido por lei, foi muito claro que o policia se estava tentar ganhar uma gorjeta extra para me liberar da fronteira.
Passada a fronteira lá fizemos mais 3 horas de carro até chegar a Bukhara. Com a visita desta cidade, deu para entender todo o mecanismo da então rota da seda. Uma verdadeira cidade museu com 25 séculos de história. Cidade que era ponto de passagem das caravanas da seda. Visitamos alguns dos caravançarais que eram albergues para as pessoas que transportavam a seda, o local onde se faziam os pagamentos de alguns impostos.
No dia seguinte de manhã fomos para Samarkand, uma verdadeira pérola preciosa do mundo muçulmano, quase como se fosse a Roma do Oriente. Uma cidade inacreditável para fechar esta parte da viagem com chave de ouro. Mesquitas e Matrazas em todo o lado, que me encantaram pela beleza extrema. Na Mesquita de Bibi-Hhanim perdi-me a contemplar os azulejos que forram todo o edifício, o cemitério é um autêntico museu e a praça do Ragistan é algo fantástico e difícil de descrever.
E claro que eu não poderia deixar de visitar o mercado da cidade, ir ao encontro da verdadeira essência das pessoas, dos cheiros, das cores, do regatear, de provar as especiarias, o pão, as frutas… tentar diálogos entre o português e o Uzbeko. Não adianta falar inglês porque também ninguém entende, mais vale misturar a língua gestual, com sorrisos e as nossas palavras.
Uma nota sobre a alimentação nestes 2 países: é pouco variada. No Turquemenistão deram-me PLOV a quase todas as refeições, um arroz cozinhado com cenoura e com uma carne estufada em cima. Para ser sincero, já não aguentava com o raio do PLOV a todas as refeições.
Depois desta correria entre estes dois países da Ásia central chegou a hora de voar até Istambul e ir ao encontro a outra cultura, seguindo a lógica da rota da seda.
Aqui a viagem tinha outra animação, chegou ao meu encontro um dos meus melhores amigos, o Ricardo Baptista. Parece que a viagem ganhou um novo encanto e tornou-se ainda mais animada. Afinal já eram 14 dias com desconhecidos, mesmo que alguns deles se tenham transformados em amigos durante aqueles dias e quem sabe para a vida porque hoje as redes sociais ajudam muito nessa aproximação.
Pela Turquia voamos para Izmirn, para começar o tour pelas Ruinas de Efezo, a Casa da Virgem Maria, as piscinas de Pammukalle de onde seguimos para a capadócia. Mas o ponto alto da viagem foi sem dúvida o passeio de balão ali na capadócia. Algo verdadeiramente inesquecível. Eu, juntamente com o Ricardo e quatro companheiras de viagem oriundas do Brasil parecíamos 6 crianças na Disney.
Passados 3 dias voltamos a Istambul onde pela minha oitava vez nesta cidade, consegui olhar para ela como se fosse a primeira vez! Passear pelas ruas naquele frenesim de gente e trânsito que não pára as 24 horas do dia é uma aventura… Os passeios de barco no Bósforo… O mercado das especiarias com todo aquele misto de cores, cheiros e sabores… O Grand Bazar com as suas quase 4000 lojas onde tudo se regateia para conseguir fazer a melhor compra, mas sempre com a sensação de que estamos a ser enganados. Tudo o que se vive na cidade parece ser uma experiência diferente a cada momento.
É uma cidade que está repleta de história, mas que mesmo assim tem muitos traços de modernidade. Existem restaurantes maravilhosos onde apetece ficar horas sentado à mesa. A vida nocturna também é muito agitada e variada.
A longa caminhada pela Rota da Seda, durante 20 dias, levou-me a percorrer o Turkmenistão, Uzbequistão e Turquia em quase 3.600km de carro, 20 horas passadas em comboios e 25 horas repartidas por 9 voos. No final das contas estive em 12 hotéis diferentes.
É sem dúvida um circuito que vale a pena fazer com a noção que não é uma viagem para relaxar, mas sim uma viagem para enriquecer culturalmente.

