A viagem a Marrocos surgiu, tal como as outras, da necessidade de fazer uma inspecção, neste caso dupla: para a Zotos e para a Optimus. Foi em Julho de 2010.
Estava com o meu conterrâneo Rui Porto Nunes no Optimus Alive, quando se colocou a possibilidade de viajarmos juntos. O Rui pediu-me que, quando tivesse oportunidade de fazer uma viagem, lhe dissesse, que ele iria comigo. Curiosamente, eu ia para Marrocos dali a dois dias e disse-lhe que, se estivesse preparado para a aventura, seria muito bem-vindo. Na altura ele já tinha terminado de gravar a série televisiva “Lua Vermelha”, da qual era protagonista, e aceitou imediatamente o convite. Em dois dias tratou do passaporte e aí estava ele preparado para a partida.
Voámos de Lisboa para Casablanca no final do dia. À chegada, tínhamos à nossa espera o guia Alli Bougouda e o motorista Mohamed, que nos iriam acompanhar durante toda a viagem.
Voámos para Casablanca porque íamos começar por conhecer o Mazagan Beach Resort, que fica a cerca de 70 quilómetros da cidade e a sete de El Jadidá (que não chegámos a visitar, por manifesta falta de tempo). Bem de frente para o Oceano Atlântico, totalmente novo, o Mazagan pertence à cadeia One & Only Resorts, um grupo de hotéis de luxo. É composto por uma área de resort e outra de vilas, campos de golf, Spa e sete quilómetros de praia quase deserta. Da cor das dunas, integra-se perfeitamente entre o verde acentuado da exuberante vegetação e o azul forte do Atlântico. No interior, as formas e as cores de estilo árabe lembram-nos constantemente o país onde nos encontramos. O luxo e o conforto, por outro lado, confirmam esta filiação. A nós esperava-nos uma suite estupenda e um maravilhoso jantar de sabores exóticos e requintados. Optámos pelas tagines, que são um cozido de carnes com legumes e tomate, cozinhado e servido num recipiente de barro com o mesmo nome. Tal como acontece com o nosso bacalhau, existem mil e uma maneiras de confeccionar tagines. Acompanha com Cuscuz (feito à base de sêmola cozida no vapor), também ele cozinhado de variadíssimas formas. Degustámos uma fabulosa tagine de frango com passas e outra de borrego, muito comum na culinária marroquina, que nos conquistou de imediato, como num amor à primeira vista.
No dia seguinte de manhã, fizemos uma visita pelo hotel, um passeio de mota de água, demos um mergulho na praia e, de seguida, regalámo-nos com uma massagem no fantástico Spa. Terminámos a manhã com uma das várias saladas que os restaurantes de beira de piscina têm para oferecer. Divinal. Como nós, outros hóspedes usufruíam dos seus momentos de relaxe e lazer, não só turistas europeus, mas também muitos marroquinos de classe alta.
Dali seguimos para Marraquexe no nosso Toyota Land Cruiser, o transporte por excelência numa viagem-aventura. O Alli fez questão de não nos levar por auto-estrada, para que tivéssemos um contacto mais directo com a população e a paisagem local. Em vez de demorarmos duas horas, demorámos quase o dobro, mas valeu muito a pena. Era época das ceifas e ainda pudemos observar muita gente a ceifar à mão, gente a trilhar o trigo com parelhas de mulas e vacas, bem à moda antiga, como no nosso Alentejo. Encontrámos muito do que era a nossa agricultura há 30 ou 40 anos. Embora longe das memórias do Rui, eu lá fui explicando que em Arronches e na Esperança (duas aldeias do Distrito de Portalegre, no Alto Alentejo) antigamente também era assim. No entanto, a par desta forma antiga de trabalhar a terra, encontra-se uma agricultura bastante desenvolvida, com sistemas de rega e máquinas muito industrializadas. Havia ali um grande e interessante contraste entre as pessoas e a própria forma como trabalhavam a terra.
Ao fim de quase quatro horas, e depois de algumas paragens para tirar fotografias, sempre com a esperança de conseguir captar e guardar todos os momentos e emoções que ainda agora começavam, depois de uma paragem para comer uma suculenta fatia de melancia e beber um sumo de laranja numa banca de beira de estrada, lá nos íamos aproximando de Marraquexe. À entrada, ainda nas imediações, talvez a uns 30 ou 40 quilómetros de distância da cidade, começámos por encontrar um enorme complexo de prédios de luxo, com piscina, campo de ténis, etc. Imensos condomínios semi-abandonados. Vendo-nos perplexos, o Alli explicou-nos que o Governo tinha investido milhões de dirhams na construção daqueles condomínios para cativar as pessoas a deixar o sobrelotado centro da cidade. Mas a verdade é que poucos acederam a esta iniciativa. Para muitos, não passou de um “presente envenenado”: em troca de mais conforto e melhores condições habitacionais, as pessoas teriam que enfrentar e suportar todos os dias o inferno das imensas filas de trânsito para chegar à cidade. A maioria preferiu, por causa disso, continuar a morar em casas mais humildes e em piores condições. Assim ficou implantado nos arredores da cidade um enorme “elefante branco”.
Chegamos finalmente a Marraquexe. Ficámos alojados no novíssimo Hotel La Rennaissance, um cinco estrelas bem no centro da cidade. É um Design Hotel, inaugurado há muito pouco tempo. Apesar de não ser tipicamente marroquino e ter um design minimalista, é muitíssimo acolhedor e confortável. É um dos edifícios mais altos de Marraquexe (onde não se pode construir acima dos minaretes das mesquitas). Do bar, situado no último andar, podemos usufruir de uma vista imperdível sobre toda a cidade, plana e de edifícios baixos. Curiosamente, o director do hotel era português e recebeu-nos com toda a deferência.
Marraquexe fica no sopé da cordilheira do Atlas e, por se misturar com os tons da montanha, é também conhecida por “cidade vermelha”. O tempo que tínhamos para estar nesta cidade de tons ocres não era muito e, por isso, optámos por ir logo visitar a Praça Djemaa el-Fna ou Jemaa El Fna, a maior e mais movimentada da cidade. Encontrámos inúmeras barracas e tendas de comida marroquina, com mesas corridas, sem qualquer pretensão de luxo, várias roulottes a vender sumos de laranja, frutas e especiarias. Um mundo de cores e cheiros que marca a diferença de tudo o que conhecemos. É impossível estar na cidade e não ir todos os dias passear nesta praça, nem que seja durante uns breves minutos. As pessoas inventam tudo para vender, criam jogos para ganhar dinheiro, tudo se inventa para comercializar ali. A praça está repleta de ruídos provenientes da mistura de pregões, cantares e música, um apelo aos nossos ouvidos. Uma verdadeira sinfonia, diria eu!
A praça fica na Medina de Marraquexe. Cidade fortificada, construída no início do século XI, a Medina está classificada pela UNESCO como Património Mundial. Decidimos percorrer aquele labirinto de ruas estreitas, com uma mistura de cheiros, gente, artesanato, vendedores que nos abordam insistentemente, muita contrafacção, encantadores de serpentes, etc. Encontrámos um homem que andava a vender pedras do deserto mas que, passado um bocado, já quase nos oferecia dinheiro… Isto porque entretanto fizemos uma sessão fotográfica com ele, que o deixou deslumbrado, mas a achar que só ficando com a máquina podia ter as fotos. Prometemos oferecer-lhas e cumprimos a promessa ainda durante a nossa estadia. Quando passados três dias lhe fomos levar as fotos, ficou radiante com a oferta. Continuámos o nosso passeio, mas acabámos por perder-nos ao fim de uma hora e demos por nós numa zona residencial, ainda dentro da Medina. Já não sabíamos sair daquele labirinto, mas, tal como eu, o Rui tem muita facilidade de contacto com as pessoas. Acabámos por entrar em casa de uma família que nos convidou para beber um chá. Aí percebemos que as pessoas moram ali por paixão. Preferem estar em piores condições, mas estar no sítio onde sempre viveram, perto das pessoas que gostam e que conhecem desde que nasceram. Esta mesma família ajudou-nos, depois, a sair dali e fomos jantar na praça. A oferta é variadíssima: imensa carne e peixe com bastantes especiarias, legumes grelhados, comida com óptimo aspecto e um paladar fabuloso. São tantos os grelhadores espalhados pela praça e o fumo é de tal ordem, que se tentássemos fazer fotografias não se iria ver praticamente nada.
A requintada culinária marroquina é rica na sua combinação de sabores: legumes e frutos secos, especiarias perfumadas, carnes muito condimentadas, peixes e mariscos preparados com todo o cuidado. Começámos a nossa refeição com uma típica salada à base de pepino, tomate e pimentos e com uma Harira – sopa de carne com legumes e grãos. Deliciámo-nos depois com as espetadas de carne e ainda provámos o Metchui – borrego assado muito lentamente no forno (ao prová-lo, ficamos com a sensação de que a carne se derrete na boca).
No regresso alugámos uma charrette e fizemos ainda um passeio de quase uma hora pela cidade. Ao chegar ao hotel, o director aguardava-nos, simpaticamente, para um digestivo.
Na manhã do dia seguinte, o Alli já estava à nossa espera à porta do hotel para iniciarmos a nossa aventura a caminho do deserto. A viagem fez-se através da estrada nacional número nove (N9). Nesse dia tínhamos um percurso de Marraquexe a Ouarzazate, que marca a entrada no deserto. O ponto alto deste trajecto é a travessia do Alto Atlas (uma subcordilheira do Atlas) onde se encontra a Jbel (Jebel) Toubkal, que, com os seus 4.167 metros, é considerada o pico mais alto, não só de Marrocos, mas de todo o Norte de África. Situa-se a 63 quilómetros a sul da cidade de Marraquexe, no Parque Nacional Toubkal. É um longo percurso (mais de 200 quilómetros) até Ouarzazate e, se for Verão, como era o caso, as temperaturas tornam-se sufocantes. Para terem uma ideia, quando saímos de Marraquexe, por volta das oito da manhã, já estavam 45ºC. Atravessámos toda a cordilheira do Atlas com temperaturas a atingirem os 50ºC. Mas nada nos impediu de prosseguir esta viagem, que durou cerca de cinco horas, fazendo algumas paragens para conhecer melhor aquela zona.
Já na Província de Ouarzazate (na região de Souss-Massa-Draa), mas antes de chegar à capital com o mesmo nome, parámos para almoçar. O local escolhido foi Alt Benhaddou ou Ait-Ben-Haddou, cidade fortificada, fundada em 757 por Ben Haddou. Constituída por várias pequenas casas, ou kasbahs, construídas em barro e madeira, a cidade foi classificada Património Mundial pela UNESCO. Aqui foram rodados vários filmes. Desde o famoso “Lawrence da Arábia” de 1962, passando pela “Jóia do Nilo” de 1985, pel’ “O Gladiador” de 2000, pelo “Astérix e Obélix – Missão Cleópatra” de 2002, até ao mais recente “Babel” de 2006, vários foram os realizadores que aproveitaram, não só a paisagem, mas também a existência de estúdios cinematográficos na capital Ouarzazate. Na cidade fortificada vivem apenas dez famílias, uma vez que a maioria dos habitantes vive agora numa aldeia mais moderna, no outro lado do rio Ouarzazate. Não se via ninguém nas ruas devido ao calor. A temperatura era tão elevada que nada era nítido ao olhar. A linha do horizonte era impossível de perceber. Tudo parecia trémulo e a sensação que tínhamos era de que tudo se estava a derreter e a evaporar-se lentamente. Numa tentativa de nos refrescarmos, ou melhor, de nos abrigarmos do calor, entrámos numa loja onde estava um pintor. Ali permanecemos à conversa com o senhor. A determinada altura, demos por nós a pintar os nossos próprios quadros, utilizando uma mistura de óleo e canela e um papel especial, que depois era passado pelo fogo de uma vela para realçar a cor desta especiaria.
Continuámos viagem até ao próximo porto de abrigo, já em Ouarzazate. Esta é uma das cidades mais visitadas em Marrocos pelas atracções que apresenta: a existência de aeroporto internacional, a proximidade do Deserto do Sahara, as montanhas do Atlas, os estúdios cinematográficos, o Vale do Draa, a cidade fortificada de Alt Benhaddou nas imediações, etc.
O local aqui escolhido para restabelecer energias foi o hotel Le Berbere Palace, do grupo Palaces & Traditions. Com uma excelente localização na cidade, ofereceu-nos naquele momento tudo o que nós mais precisávamos: uma fantástica piscina para nos refrescarmos. A sensação de frescura infelizmente não foi nenhuma, porque a água estava quase tão quente quanto o ar, mas a surpreendente decoração do hotel fez as nossas delícias. Como não podia deixar de ser, todo o espaço estava decorado com pedaços de cenário dos filmes rodados em Marrocos e com os cartazes que os publicitaram. O charme e o requinte não ficaram esquecidos neste luxuoso hotel apalaçado. À noite, optámos por nos afastar um pouco da culinária marroquina e jantámos no restaurante de comida francesa do hotel: um manjar dos deuses com um serviço exímio.
No dia seguinte bem cedo, perto das seis horas da manhã, saímos com destino a M’Hamid. Neste troço, a principal atracção é a travessia do Vale do Draa, com o fabuloso palmeiral de cerca de 200 quilómetros, pertencente já à outra Província da Região de Souss-Massa-Draa, a de Zagora. Um verdadeiro oásis no meio do deserto. Ao longo deste percurso, parámos em Agdz (que em conjunto com Zagora constituem as duas principais cidades desta Província), nas margens do Rio Draa, o maior de Marrocos. Mais uma vez a temperatura rondava os 50ºC… O almoço foi já na cidade de Zagora. Num restaurante bem típico. Provámos um prato tradicional muito apreciado por estas bandas: a Pastilla Marroquina, um folhado feito de uma massa muito fina, com um recheio agridoce que pode variar, mas que normalmente é composto por carne de pombo, ovos, amêndoas e canela. O pão nunca faltou nas refeições, uma vez que em Marrocos este alimento tem um significado algo místico, sendo sempre considerado uma oferta, mesmo nos restaurantes. O local era especializado também em pastelaria marroquina, que é muito rica e variada, sendo quase sempre à base de massas, amêndoas e outros frutos secos. Deliciámo-nos com uma espécie de chamuças de mel e amêndoa, e ainda fomos “obrigados” a provar as feqqas com amêndoas. No final de cada refeição é quase obrigatório o chá de menta, um digestivo que os marroquinos ingerem em quantidades industriais, sob qualquer pretexto, porque, apesar de quente, a menta torna-o bastante refrescante.
À saída desta localidade, entrámos verdadeiramente nas pistas do Deserto do Sahara onde, em tempos, se realizava o famoso rali Paris Dakar. Seriam umas duas da tarde e os termómetros rodavam os 56ºC, 57ºC. A chapa do jipe fervia e não havia ar condicionado que aguentasse, motivo pelo qual resolvemos desligá-lo e abrir os vidros. No meio de tudo isto, valia-me o entusiasmo do Rui que, vagamente inebriado com o calor, metia a cabeça de fora do vidro e gritava em alto e bom som: “Sou uma criança feliz!! Sou uma criança feliz!! Isto para mim é um sonho!” Ele, na realidade, lá ia transformando os momentos mais difíceis da viagem em experiências únicas na nossas vidas. Foi assim que, na boca do Rui, a água das garrafas que trazíamos dentro do jipe se transformou num maravilhoso elixir do deserto: o “chá d’água”!
Por volta das quatro da tarde, chegámos finalmente a M’Hamid. É uma pequena localidade pertencente à Província de Zagora, mesmo às portas do deserto, com uma genuína autenticidade. Estabelece o fim da estrada de alcatrão. Fica a aproximadamente sete ou oito horas de Marraquexe e cinco ou seis de Ouarzazate. O hotel escolhido para permanecer aqui foi o Dar Azawad Boutique Hotel. Lá dentro é impossível esquecermo-nos do meio que nos rodeia e a presença do deserto faz-se sentir em todos os detalhes. De arquitectura marcadamente marroquina, o hotel, não muito grande, disponibiliza pequenas suites kasbahs, ao estilo Berbere, decoradas com imensa cor e peças autenticamente locais, recheadas de beleza e conforto. Mas a “cereja no topo do bolo” é o Tented Camp que o Dar Azawad apresenta. Localizado a 60 quilómetros de M’Hamid, longe de tudo, bem nas Dunas de Chegaga – as mais bonitas dunas de areia no sul de Marrocos – o luxo, o conforto e o requinte marcam presença. À chegada ao hotel, fomos informados de que o nosso motorista e o nosso guia não poderiam ficar ali connosco, porque já não havia quartos disponíveis. A equipa do piloto espanhol Carlos Sainz estava toda alojada no hotel, em treinos no deserto, para a preparação do rali Dakar de 2011. Acabou por ser engraçado porque pudemos conviver com todos eles e perceber como tudo funciona: os treinos debaixo das condições mais austeras são a melhor preparação para este tipo de provas, diziam.
No final da tarde iniciámos, finalmente, a nossa aventura no Sahara, propriamente dito. Saímos no nosso jipe. Mas rapidamente mudámos de transporte. À nossa espera estavam dois camelos, eleitos pela população local como o meio de transporte ideal no deserto. Companheiros de longas jornadas pelas areias finas e onduladas, habituados a grandes amplitudes térmicas, os nossos camelos passearam-nos durante 45 minutos. O objectivo era chegar a um bivouac (acampamento desmontável de tendas tuaregues) onde nos esperava um “jantar-das-mil-e-uma-noites”. Um verdadeiro harém com direito a bailarinas, músicos e iguarias de luxo. E para que não faltasse mesmo nada, o céu presenteou-nos com uma estupenda lua cheia. Um momento idílico.
Estávamos quase a terminar o jantar quando se levantou um pouco de vento. Alguém no acampamento aconselhou a que nos fossemos imediatamente embora porque estava prestes a chegar uma tempestade de areia. Se tal se confirmasse, perdíamos os trilhos de volta à cidade. Em quinze minutos, o bivouac andava no ar. O vento era fortíssimo e a areia entranhava-se por todos os lados. Em pouquíssimo tempo, passámos de uma noite de luar lindíssima, a uma noite escura e tempestuosa. Partimos imediatamente em direcção a M’Hamid e conseguimos chegar sem grandes dificuldades, graças à astúcia e perícia do nosso motorista e da experiência do Alli. Mais uns minutos e a viagem de regresso não teria sido bem sucedida.
Nessa noite, caímos como uns bebés na cama. No dia seguinte, a alvorada seria, como de costume, bem cedo. Iríamos regressar a Marraquexe, mas desta vez pela parte das dunas de Erg Chegaga – o maior banco de dunas douradas de Marrocos, com uma extensão de mais de 120 quilómetros – o local ideal para explorar o deserto. Demorámos mais tempo do que o normal porque fizemos imensas paragens, contra a vontade do nosso motorista, que nos explicou que se parasse em determinadas zonas, ficávamos atolados na areia. Uma das vezes, a nossa insistência deu mesmo mau resultado e o jipe atolou. Tivemos que cavar durante quase uma hora para conseguir “desenterrar” o nosso veículo. Seriam aí umas nove e tal da manhã e já estavam 45ºC! Tínhamos a sensação de que a qualquer momento desmaiaríamos. Depois de resolvido este incidente, por culpa nossa e do nosso capricho fotográfico, rumámos a Foum Zgui onde almoçámos novamente num restaurante de beira de estrada. Seguimos viagem e, quando entrámos no troço comum, aquele que já tínhamos percorrido à ida para M’Hamid (a parte montanhosa do Atlas), eu e o Rui preparávamo-nos para dormir um pouco dentro do jipe. Mas a paisagem é de tal forma deslumbrante e exerce um tal fascínio em nós que, mesmo já não sendo novidade, não conseguimos despregar os olhos da janela. De qualquer forma, seria impossível dormir, uma vez que o nosso Alli tinha sempre coisas interessantes para nos contar. E se não existissem, ele contava uma qualquer piada para preencher o silêncio. Como começava invariavelmente o discurso com um cacarejo introdutório do tipo “cacacacacacaca”, mantinha-nos sempre despertos! Claro que passámos a chamá-lo “galináceo”! O Alli falava connosco em português, até porque tinha vivido em Portugal durante uns tempos, mas não se importou nada com a alcunha.
Na viagem de regresso, em direcção a Essaouira, não estava previsto sequer parar em Marraquexe, mas não resistimos à praça Jemaa El Fna. Fomos beber uma cerveja bem fresquinha, com umas caracoletas grelhadas e umas azeitonas bem temperadas. De estômago aconchegado pelo petisco, continuámos em direcção a Essaouira, uma das cidades costeiras com mais charme em Marrocos, com uma Medina bem no centro, extensas praias de areia fina e portos piscatórios que enchem os restaurantes locais de magnífico peixe fresco. A nossa intenção era conhecer o Hotel Atlas Essaouira & SPA. Chegámos já era noite e o cansaço pesava sobre nós. Já nem conseguimos jantar. Dormimos horas a fio e no dia seguinte, depois de um merecido mergulho na praia, fomos visitar a Medina de Essaouira, onde almoçámos e presenciámos as cerimónias de um casamento. O Alli explicou-nos que os Marroquinos costumam celebrar os casamentos aos domingos, no Outono (ou em finais da safra), quando há abundância de alimentos para a festa. Os convidados, sobretudo as mulheres, vestiam roupas com muita cor, com predominância do amarelo e verde, porque, segundo as suas crenças, o primeiro espanta o mau-olhado e o segundo traz boa sorte. Além disso, os noivos usam tatuagens temporárias feitas de henna nas mãos e pés, carregadas de simbolismo. Os casamentos marroquinos podem durar até sete dias. Os três primeiros são dedicados às cerimónias do pré-casamento. Este tem lugar no quarto dia, quando um sheik une o casal. No quinto e sexto, fazem-se as grandes festas. No sétimo, a noiva é apresentada aos amigos e familiares e, em seguida, é colocada nos braços de seu noivo, anunciando o fim da cerimónia. A saída do casal do local da festa é feita com um banho de figos e passas. Pode parecer um casamento cansativo mas, pelo que soubemos, as noivas marroquinas não se queixam, até porque a preparação de toda esta cerimónia envolve massagens e banhos de leite de purificação para o grande dia, ou melhor, para a grande semana. Nada mau!
No final da tarde, e depois de perto de três horas de viagem, regressámos a Marraquexe. Desta vez, e para terminar em grande a nossa aventura, pretendíamos refazer forças e recuperar num dos melhores hotéis do mundo: o Amanjena, do grupo Áman Resorts. Traduzido, o nome significa “paraíso de paz”. Perfeitamente escolhido por se tratar verdadeiramente de um sonho, onde a tranquilidade e a privacidade atingem o esplendor máximo. O luxo, esse é indescritível. De arquitectura árabe, inspirado na cidade de Marraquexe, nada neste espaço foi deixado ao acaso. As cores, os detalhes, a decoração, os espaços, tudo, mas mesmo tudo, foi pensado ao pormenor. Os preços são na ordem dos milhares de euros e os hóspedes podem escolher ficar numa vila, com piscina e jardim, mordomo, serviço de cozinha, pequeno-almoço personalizado, etc., ou numa suite, também com piscina privada e toda a mordomia. Qualquer que seja a opção, espaço é coisa que não vai faltar. É à grande e à árabe! Como pertence a uma cadeia internacional, o Amanjena existe também em países como as Filipinas, Bali, Vietname, Laos, Tailândia, China, etc. Mas para mim era imperativo conhecer o de Marrocos, até porque apresenta uma outra característica muito especial: a nacionalidade dos directores, que são portugueses. A Mafalda de Bragança, o seu marido Manota e uma cadela lindíssima de raça Labrador, que responde pelo nome de Zahra (que em árabe significa “flor”). Para além de dirigirem este deslumbrante espaço, são um casal anfitrião por excelência! O Manota, na altura, estava em Singapura, mas a Mafalda recebeu-nos muitíssimo bem e presenteou-nos com uma mega suite com piscina privativa. O Rui, mais uma vez, parecia uma criança acabada de chegar à Disneylandia! Num local como este, era impossível não usufruir ao máximo de todo o descanso a que tínhamos direito. E para dar um toque final a este espaço em particular, e a Marrocos em geral, nada melhor do que incluí-los nas tendências da moda. Muitas das cenas do filme “Sex and the City 2” foram filmadas aqui e no Deserto do Sahara, se não o filme todo, apesar de supostamente a trama decorrer em Abu Dhabi. Passámos dois dias no Amanjena “de papo para o ar”, no puro relax, no dolce fare niente… boa mesa, bons mergulhos na piscina e uma convivência íntima com o silêncio, que à noite se faz acompanhar pelo cintilar de centenas de velas.
Com muita pena nossa, regressámos a Lisboa, mas plenamente satisfeitos e de “barriga cheia”, no voo directo da TAP, que demora apenas 1h20m, deixando Marrocos aqui tão perto.
O que guardo desta viagem resulta essencialmente do contacto directo que estabeleci com as pessoas e da oportunidade de observar in loco os seus modos de vida. Percebi que existe um fosso enorme entre o artesanal e o industrial, entre pobres e ricos, modos de vida simples e outros bastante ostensivos. O desenvolvimento, os hotéis de luxo, os resorts, os carros caros convivem com a agricultura de subsistência, a pobreza, a escassez de recursos e a falta de poder de compra. Verifiquei que há um enorme contraste na distribuição populacional, que oscila entre o imenso aglomerado de pessoas nas cidades e a escassez nas zonas limítrofes e do deserto. Tocou-me bastante a proximidade que as pessoas estabelecem com os turistas, sobretudo as mulheres. E, mais uma vez, a rapidez com que verificamos o oposto, nomeadamente se lhes apontamos uma máquina fotográfica. Escondem o rosto e fogem de nós. Chegam mesmo a ficar muito irritadas se percebem que as fotografámos. À semelhança do que acontece em algumas zonas da América do Sul e Ásia, as pessoas acreditam que lhes roubamos a alma.
Jamais esquecerei as condições climatéricas em que fiz esta viagem. Já estive em muitas partes do Mundo, já tinha estado outras vezes em Marrocos, mas nunca tinha viajado sob um calor tão tórrido. Às páginas tantas, começava a ser indiferente estarem 48ºC ou 58ºC. Devo confessar que, a presença do Rui e a sua excitação face a tudo o que vivemos, contribuiu muito para que esta viagem se tornasse mais leve e aprazível.
Texto retirado do livro “As Minhas Viagens Pelo Mundo”.
Viagem realizada em junho de 2010.
