A minha curiosidade por visitar o Butão levou-me este ano, na companhia do meu amigo e companheiro de algumas viagens, Pedro Lourenço Pereira, a visitar este país que até 1988 não permitia a entrada de turistas. A convite do meu agente para estes países, Le Passage to Indiafui à descoberta do reino asiático escondido nas montanhas dos Himalaias, entre a China e a Índia, considerado o país mais feliz do mundo. Um país onde todos os homens e mulheres usam o mesmo estilo de traje. Para as mulheres a Kira, um vestido que tem em comum o mesmo corte e os homens o Gho, uma espécie de saia mas que ao mesmo tempo parece um vestido. Um país onde todas as casas são construídas na mesma linha arquitectónica e pintadas com as mesmas cores. Um país onde o Rei Jigme Khesar Wangchuk que está no poder desde 2008, é jovem, bonito, tem uma mulher lindíssima e é acarinhado por quase 100% da população. Um país que nunca foi conquistado nem colonizado e que se manteve intacto ali no seu esconderijo até há poucos anos. O Butão, conhecido como reino da felicidade, parece um país parado no tempo onde se vive como que num conto de fadas. Ali vivem pouco mais de 700.000 habitantes que na sua maioria se dedicam à agricultura, onde ainda há muito o espírito de interajuda entre vizinhos, e ao turismo.

Para chegar ao Butão há que dar algumas voltas e só se chega ao país entrando pelo único aeroporto que fica em Paro, que nem é a capital. Chega-se apenas numa das duas companhias aéreas locais – Druk Air ou Bhuthan Airlines, esta última que é propriedade do Rei. Há ligações apenas desde Bangkok, Katmandu, Nova Delhi ou Calcutá.

À chegada ao aeroporto de Paro o nosso primeiro encontro foi com os nossos companheiros de viagem, o guia Tandin e o choufer Tshewang que nos acompanhariam durante a nossa rápida visita de apenas 5 dias. Apareceram devidamente trajados e a mascar um creme de castanha (DOMA) enrolado numa folha verde para proteger os dentes e para os aliviar do frio. Deram-nos a provar em jeito de boas vindas, mas foi impossível mastigar aquilo, Na verdade sabia a fruta podre. A intenção era a melhor, só que não conseguimos superar a prova. O Tandin e o Tshewang estavam curiosos com a nossa chegada, não por sermos portugueses, mas sim por sermos do país do Cristiano Ronaldo e do Luís Figo.

Almoçamos em Paro e de seguida fomos ver um grupo de homens em grandes disputas de arco e flecha que é o desporto nacional. Além da perícia da pontaria o mais engraçado são mesmo as coreografias que eles fazem ao som de música quando vencem uma das provas.

Seguimos depois para Thimphu, capital do Butão, é a maior cidade do país com uma população que ronda os 105 mil habitantes, localizada a cerca de 55 km de Paro e nas margens do rio Wang Chu. Uma estrada estreita e cheia de curvas quase desenhada nas montanhas levou-nos até lá. Pelo caminho fomos encontrando uma paisagem fantástica que parecia tirada de cenários de um filme. Percorremos quase duas horas e meia entre pequenas aldeias, montanhas carregadas de neve, arrozais, mosteiros, estupas (monumento Budista usado normalmente como mausoléu) e bandeiras de coloridas, que  estão por todo o lado. Tudo é motivo para pendurarem uma bandeira de oração, seja pelo nascimento de uma criança, morte de um familiar, para pedir proteção em caso de doença ou até para celebrar a alegria. Cada cor tem uma razão. Vermelho é fogo, o amarelo refere-se à terra, o azul à água, o verde é natureza e o branco simboliza o céu. Conjuntos de bandeiras brancas são hasteados em casos de morte. Outra curiosidade era mesmo a presença do orgão sexual masculino pintado ou em esculturas como símbolo que afasta os espíritos do mal. É visto como símbolo de fertilidade e prosperidade. Encontramos reproduções dele, sempre muito “feliz”, pintados em muitas das casas, sobretudo nas zonas mais rurais. Sejam desenhos ou esculturas, para os butaneses não têm qualquer significado de ordem sexual. Pelo caminho visitamos o BUDDHA DORDENMA uma estátua de bronze gigantesca, com cerca de 100 metros de altura, recém construída numa montanha perto de de Thimphu e que está agora entre as maiores estátuas de Buda do mundo inteiro.

Thimphu apesar de ser a capital é pouco mais do que uma praça. As ruas vão todas dar ao mesmo cruzamento, onde um polícia sinaleiro orientava o trânsito, que quase não existia, com numa coreografia que parecia comandada por um maestro.

Em busca de bom Karma fomos ao Tashichho Dzong, um mosteiro budista, nas margens do rio Wang Chu, e depois seguimos para o Memorial Chorten, uma enorme estupa que se tornou num lugar bastante sagrado no centro de Thimphu. Esta estupa foi construída em 1974 em honra ao terceiro Rei do Butão que viveu de 1928 a 1972. Pela sua beleza o monumento é hoje um dos principais postais ilustrados do Butão. Lá rodamos as rodas de acção e fizemos as nossas orações e, claro, os pedidos de sorte para a vida.

No dia seguinte, levantamos de madrugada porque tínhamos 8 horas de estrada pela frente até Punakha. Pelo caminho visitamos as estupas de Druk Wamgiel, em Dochula Pass, nos arredores de Thimphu onde fiz o meu primeiro salto por terras butanesas. Seguimos depois para o mosteiro de Druk Wangyel Lhakhang, um dos mais bem cuidados do país. Mas o mais interessante desta região são os monumentos fálicos e os mercados. No Butão o comércio é muito rudimentar e até há pouco tempo tudo funcionava num sistema de troca. Nestes mercados e feiras mais rurais predominam os vendedores de frutas, legumes, muito arroz de várias qualidades, vários tipos de pimenta, e um queijo bastante intenso, nunca faltando a DOMA, que acabámos por descobrir que é viciante. Em qualquer viagem eu perco-me sempre nestas feiras, é um contacto com as pessoas sempre muito próximo apesar da barreira da língua, acabo por andar por ali a fotografar, provar algumas iguarias e a tentar dialogar com as pessoas.

Por aqui visitámos um dos mosteiros mais bonitos do Butão, o Punakha Dzong, também chamado de Pungtang Dechen Photrang, que significa “palácio da grande felicidade”. Foi construído estrategicamente na confluência dos rios Pho Chu que significa pai e do Mo Chu, que significa mãe. É o segundo palácio mais antigo do Butão e um dos maiores e que já foi o centro administrativo do país. Agora, o Punakha Dzong é o centro religioso e escola de monges.

Levantamo-nos de madrugada para enfrentar as montanhas pela sinuosa estrada até Paro. Passamos o dia quase todo no caminho porque a estrada que estava em obras e chegamos a ter interrupções de 3 horas parados no carro à espera que o caminho fosse desimpedido. A ânsia de chegar a Paro era muita,  estávamos perto de visitar o local mais aguardado da viagem: o templo mais sagrado e lendário do Butão, o Taktshang GoembaTiger’s Nest ou Ninho do Tigre.

Chegar até lá não era tarefa fácil. Menos ainda porque decidimos vestirmo-nos a rigor, cada um com seu Gho, emprestados pelo guia e pelo motorista. Além da caminhada íngreme, o mais difícil de vencer seria o efeito da altitude. Além dos 2400m de paro havia que vencer mais 800 metros de montanha. O Pedro decidiu ir a pé mas eu optei por ir de mula e aliviar assim o cansaço. O passeio acabou por ser tão divertido quanto assustador. A mula subia de pedra em pedra como se estivesse a andar numa estrada plana e eu não via a hora de cair da albarda do animal. Correu tudo bem e passadas 2h30 lá estávamos nós cansados, mas merecedores daquela recompensa. Avistamos de perto o templo e parecia que as nossas energias se tinham renovado perante tamanha beleza, mas ainda faltava mais um desafio… uma sinuosa escadaria para descer e voltar a subir até chegar ao Mosteiro, qualquer coisa como 760 degraus. Em marcha mais lenta lá vencemos mais este caminho. A pior parte é que ainda tínhamos que repetir tudo para voltar a Paro e já sem a ajuda da minha mula.

Ali fiz mais um dos meus saltos ao lado do Tshewang, o nosso choufer, que subiu connosco para nos ajudar a carregar as mochilas com água e comida.

No momento de descanso e enquanto reabastecíamos as forças com a nossa merenda, perante uma vista  maravilhoso o guia Tandin explicou-nos que segundo diz a lenda, o Guru Rinpoche, que é uma das personagens religiosas mais importantes do Butão, terá voado até ao cume daquela montanha montado num tigre por volta do século VII e ali terá passado três meses meditando na caverna, antes de começar a difundir o budismo pelo país. A construção do mosteiro de Taktshang data de 1692 e está a 800m acima de Paro, ou seja quase 3200 metros de altitude. O Mosteiro é formado por quatro templos, um deles é o dormitório dos monges, que ali vivem, e dos policias que zelam pela segurança do espaço e que passam um mês de plantão. Os templos parecem encravados nas rochas e são unidos entre eles por escadarias. Para entrar no seu interior tivemos que deixar os telemóveis e câmeras fotográficas na entrada. É completamente proibido recolher qualquer imagem do seu interior.

Ficamos por ali cerca de 3 horas a contemplar aquele lugar maravilhoso e a ganhar coragem para descer. Pelo caminho ainda fizemos uma paragem num pequeno restaurante que por ser tarde só tinha arroz para nos oferecer. Soube pela vida.

Chegamos ao final desta longa caminhada completamente exaustos. O guia disse-nos que tinha uma surpresa e que no dia seguinte estaríamos novos. E assim foi, levou-nos até à sua casa onde tinha uma espécie de banheiras em madeira e convidou-nos a relaxar num banho aquecido com pedras vulcânicas. Bastaram 30 minutos mergulhados naquela água tão quente e cheia de cinza e pedaços de carvão. Quase não aguentávamos a temperatura, mas certo é que ficarmos em plena forma física e completamente relaxados. No dia seguinte não sentimos o menor cansaço. Foi mesinha santa.

O Butão, ainda tem muito para progredir a nível do turismo, sobretudo da oferta gastronómica que é muito pobre, mas apesar de ser o país 109 que visitei marcou-me imenso pela sua simplicidade e pela afectuosidade das pessoas. É um país onde ainda não chegaram as grandes cadeias alimentares internacionais, onde não há outdoors de publicidade, onde só chega a informação que o Rei permite, onde há uma taxa de analfabetismo enorme, mas onde no meio desta ingenuidade toda as pessoas parecem realmente felizes.

Para saber mais sobre o Butão basta consultar o site aqui.

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Viagem realizada em janeiro de 2015.