Quénia com Sofia Cerveira

O Quénia era para mim, até à altura em que fiz esta viagem de inspecção, um desafio. Tirando o Norte, eu conhecia muito mal África. Em meados de 2003 tinha propostas por parte de alguns clientes para fazer uma viagem ao Quénia, nomeadamente da FIAT e da NOVIS (que precisava de organizar uma viagem de incentivo para os seus Agentes). Como eu realmente tinha muita curiosidade em conhecer este destino, resolvi partir à descoberta e tentar perceber o que é que o país, que suporta parte do monte Kilimanjaro, tinha para me oferecer.

A minha primeira viagem foi com o meu amigo Salim Jafar, que várias vezes me tinha desafiado para ir conhecer o Quénia, até porque em Nairobi vive a sua irmã – Karima Popat – com o marido Adil (que é queniano) e as filhas. Para além do Salim, viajaram comigo o Rodolfo Rodrigues, meu funcionário na agência (e que levantou o dedo mal eu perguntei quem queria vir comigo ao Quénia), e o também grande amigo João Mário Bigares (um fascinado pela vida selvagem e por tudo o que é natureza) que na época, além de ser colaborador da agência, estudava Veterinária.

Voámos via Zurique e eu, com a minha audácia, consegui um upgrade para executiva a bordo da Swissair para mim e para o Salim. Fizemos uma excelente viagem até Nairobi, capital do Quénia, com cerca de três milhões de habitantes, embora a primeira imagem com que fiquei ao atravessar a cidade foi a de que ali poderiam viver uns quantos milhões a mais e que não entram nas contas. À chegada esperavam-nos as primas do Salim – a Shaheem e a Fareen Therani – donas da agência que recebe sempre os nossos clientes em Nairobi. Fomos de imediato para casa da irmã do Salim, onde nos esperava um excelente pequeno-almoço de fusão, que misturava iguarias quenianas e muçulmanas (uma vez que esta é a sua origem). Até hoje recordo umas salsichas de frango com caril que comi nesse dia e que estavam maravilhosas. Comíamos salsichas atrás de salsichas e não nos cansávamos porque o sabor era realmente distinto. Combinadas com forte sabor do café local, formavam o contraste ideal.

 

Diamantino-Martins-africa

O nosso primeiro destino era o Aberdare National Park, na parte central do Quénia, a aproximadamente 100 quilómetros de distância de Nairobi, para norte. Fica numa zona montanhosa – Aberdare Mountain Range – que chega a atingir mais de 4.000 metros de altura. O caminho até lá era realmente digno de um safari. Numa estrada de terra batida que mais parecia a superfície lunar, saíamos de um buraco e caíamos imediatamente noutro. Na primeira noite, já no Parque Nacional, ficámos instalados no hotel The Ark, um edifício todo em madeira, erguido em cima de umas palafitas sobre um charco de água muito suja, onde os animais vão beber água durante a noite, altura em que se gera um verdadeiro desassossego. É que para que os clientes pudessem apreciar o momento, o hotel tocava as campainhas dos quartos com diferentes tipos de toques, consoante o animal que estivesse lá fora a beber água. Um toque para ver os elefantes, dois para os rinocerontes, três para a hiena, e por aí fora. Passávamos a noite a acordar para irmos à janela ver os animais saciar a sede. Teve a sua graça, sobretudo porque na altura eu usava lentes de contacto que tinha de tirar para dormir… Acabei por nem ver o rinoceronte: enquanto punha e não punha as lentes, o bicho ia-se embora. Sempre que chegava à varanda já não via nada. Madrugada adentro, acabei por desistir e desliguei a campainha do meu quarto. Só assim consegui dormir. De manhã, ao pequeno-almoço, vi as fotografias que os meus amigos tinham tirado, e pronto, fiquei a saber que, ao contrário do Pai Natal, o rinoceronte existe mesmo.

Lago Nakuru - Final de tarde na presenca de milhoes de Flamingos

Seguimos viagem para o Lago Nakuru, que na língua Masai significa “poeira ou lugar empoeirado”. Fica no Lake Nakuru National Park, a meio caminho entre Nairobi e Mombaça, a sul da cidade de Nakuru. Foi mais uma longa viagem. Os cerca de 150 quilómetros mais pareciam 1500. Dizem que em África as distâncias não se medem pelos quilómetros e é absolutamente verdade. Os caminhos eram, mais uma vez, extremamente sinuosos, cheios de buracos. Apesar de complicado, lá conseguimos chegar ao nosso destino, pouco passava da hora de almoço. Aqui ficámos hospedados no Sarova Lion Hill Game Lodge, a aproximadamente cinco quilómetros de distância do Lago Nakuru, que ainda pertence ao vastíssimo Vale do Rift – um enorme complexo de falhas tectónicas, com mais de 35 milhões de anos, que se estende ao longo de uma área com cerca de 5.000 quilómetros, desde a Síria até Moçambique, dando origem uma paisagem marcada por escarpas, depressões, vulcões e lagos. Este Lago Nakuru, alcalino e superficial, tem uma particularidade que o torna conhecido em todo o mundo: é palco de um espectáculo único – a presença de milhões de flamingos (mas milhões mesmo) que pintam o lago de várias tonalidades de cor-de-rosa quando ali se juntam. Esta imagem, absolutamente estrondosa, juntamente com o barulho ensurdecedor que fazem todos aqueles flamingos juntos, faz-nos acreditar que estamos perante um espectáculo inesquecível. A par das migrações dos gnus, foi sem dúvida um dos momentos da vida animal mais bonitos que eu já vi. E nessa tarde tivemos ainda a sorte de ver um rinoceronte, ao vivo e a cores (uma estreia, no meu caso), ou não fosse aquela zona considerada, desde 1986, o primeiro santuário de rinocerontes do país, que viu a protecção desta espécie, ameaçada pelos caçadores furtivos, aumentar consideravelmente. A raça estava ali bem representada por um imponente macho com ar de mau que fixava atentamente todos os nossos movimentos, enquanto o nosso Ranger nos explicava que estávamos perante o animal mais feroz da selva.

Dali fomos para Masai Mara, na continuação do percurso entre Nairobi e Mombaça. Masai Mara era o grande objectivo desta viagem. Aqui, mais uma noite entre chitas, leões e elefantes. O João Mário, que é realmente fascinado pela natureza e que conhece tudo quanto é espécie de animal, revelou-se um excelente guia, pois sabia mais que o Ranger que nos conduzia no jipe e a quem dava, inclusivamente, algumas explicações. Ainda hoje recordo algumas das particularidades da vida animal que aprendi com ele. Entre muitas outras coisas, aprendi, por exemplo, que existem uns pássaros, verdadeiros engenheiros de casas suspensas, que fazem os ninhos de palha pendurados das árvores e que eu já tinha visto noutras partes do mundo sem saber que se designavam Tecelões.

Masai Mara é uma das maiores e mais conceituadas reservas naturais do Quénia. É aqui que vive o povo Masai, um dos mais conhecidos internacionalmente, com cerca de 450 mil indivíduos só no Quénia. São um grupo étnico semi-nómada, o único com autorização para viajar livremente entre o Quénia e a Tanzânia, onde se estimam vivam mais 420 mil. Identificam-se facilmente por terem as orelhas furadas e alargadas com o uso de discos. Constroem as casas com excrementos de animais e canas. Ou melhor, as mulheres constroem as casas, porque os homens, esses, ficam responsáveis pela defesa e segurança da população. Os costumes e tradições que fazem parte da identidade deste povo são, até hoje, preservados e defendidos. Para se fazerem ouvir no resto do mundo, têm um representante nas Nações Unidas.

A Reserva Nacional de Masai Mara é a continuação do Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia. Os alojamentos em Masai Mara são lodges, acampamentos em português, e estão perfeitamente integrados na paisagem. Construídos por detrás das colinas mais altas, completamente discretos, não perturbam o olhar perante a natureza. A nossa escolha recaiu no Governor’s Camp. Tal como os outros, um lodge de luxo à beira rio, em que todos os quartos são tendas decoradas com muito bom gosto, cheias de conforto e requinte, e com casas de banho espectaculares. Apesar de tudo, e mesmo sabendo que há sempre vários vigilantes armados em defesa dos hóspedes, o rugir de alguns animais durante a noite causa algum respeito aos espíritos mais sensíveis.

Dois dias e uma noite depois voámos para Mombaça, na costa, junto ao Oceano Índico. É a segunda maior cidade do país, com cerca de 1 milhão de habitantes. É, sem dúvida, uma das cidades mais pobres que eu já vi. As casas não são pintadas, a maioria não têm janelas, ou se têm, estão partidas. Há lixo por todos os cantos, os carros são velhos e a maioria a cair de podres. Há uma degradação muito grande na cidade em contraste com toda a costa, onde já encontramos hotéis de muito boa qualidade, alguns de luxo, com muito bom serviço. Nesta zona costeira, junto ao Índico, podemos encontrar também praias lindíssimas, com areias super finas e águas bastante cristalinas. Vale a pena dar uma espreitadela e uns bons mergulhos, já agora!

Na curta estadia em Mombaça fomos jantar no Forte de Jesus, que hoje é um museu e um importante monumento histórico do Quénia, mas que foi construído pelos portugueses como forte de defesa das rotas comerciais que ali faziam escala no século XVI e XVII. Acabámos por conhecer um bocadinho mais da nossa história, nomeadamente sobre o comportamento menos bom que tínhamos naquela época. O Forte servia de porta de saída dos escravos para o Brasil e os portugueses faziam ali uma selecção dos que tinham saúde e dos que não tinham, sendo estes últimos postos em calabouços ou afogados, uma vez que não apresentavam condições para aguentar a viagem, ou, simplesmente, não serviam para trabalhar. Fomos, pois, ali confrontados com a parte mais negra da nossa história colonial que, confesso, atrapalhou o nosso apetite.

A acelerada visita de inspecção estava feita. Em apenas três noites, e depois de muitos quilómetros percorridos, eu tinha visto o essencial do que realmente precisava para ali voltar com o grupo da NOVIS três meses mais tarde. Bastante satisfeito por ter vencido a minha resistência em conhecer outras zonas de África, e cheio de pena de ter que regressar a Portugal, voei com os meus amigos para Nairobi. Durante este voo, o Rodolfo, que não se conformava em ter estado no Quénia apenas quatro dias, pediu-me para tirar umas férias e ficar mais uns tempos naquele país absolutamente fascinante, juntamente com o João Mário. Consenti, e enquanto eu e o Salim voávamos para Zurique, eles os dois seguiram à descoberta do país.

Passados três meses voltei ao Quénia com o grupo da NOVIS, composto por cerca de 60 pessoas, com o apoio do coordenador Tiago Quintas e sob a batuta da então Directora de Marketing Inês Valadas e do Director Comercial Ângelo Correia. Com este grupo fizemos precisamente o mesmo percurso que eu tinha feito com o Salim e com o João Mário, mas com mais tempo. Do muito que poderia contar desta viagem, destaco dois episódios engraçadíssimos dos quais me lembrarei sempre.

Tínhamos feito a viagem até Masai Mara em carrinhas de nove lugares, percorrendo as mesmas estradas que eu já havia experimentado antes. Na altura em que devíamos estar a sair para Mombaça, as pessoas começaram a ficar bastante apreensivas por não saberem como iriam fazer a viagem. Depois da primeira experiência aos saltos de buraco em buraco durante várias horas, não se imaginavam a fazer tudo de novo. E a verdade é que por ali não existiam aeroportos. Mais, na altura apanhámos a época das migrações dos gnus. Milhões destes animais estavam a sair do Serengeti e a entrar em Masai Mara, à procura de pastos frescos e água. A nuvem de pó que deixavam no ar à sua passagem impedia qualquer piloto de ver alguma pista, que, a existir, estaria provavelmente repleta dos ditos animais. Depois do almoço no Mara Simba Lodge, seguimos com o grupo nos jipes e nas carrinhas até um descampado, onde nos esperavam onze aviões, uns com capacidade para quatro pessoas, outros oito, outros dez e o maior levava 16 pessoas. Claro que nenhum tinha espaço à parte para as bagagens. Quando depararam com aquele cenário, alguns dos elementos do grupo entraram em pânico e só me diziam que jamais entrariam naquelas avionetas. Foi preciso algum tempo para que todos se acalmassem e se convencessem de que não havia problema algum e que tudo iria valer a pena pelo espectáculo das mandas de gnus visto lá de cima. Acabou por ser ainda mais engraçado porque levantámos voo uns a seguir aos outros e, durante uma hora e meia de viagem, fomos sempre brincando, fazendo ultrapassagens como se continuássemos nas carrinhas, uns mais abaixo outros mais acima, uns de um lado outros de outro. No fundo os pilotos tinham ali a missão de descontrair os passageiros, dado que não havia tripulação. Parecia quase uma brincadeira de aviões telecomandados. Para alívio de todos, chegámos em segurança a Mombaça. Acredito que até hoje ninguém se tenha esquecido desta viagem. Eu pelo menos nunca mais a esqueci, assim como não esqueci o facto de o meu amigo Pedro, que ia no mesmo avião que eu, de repente ter ficado com uma enorme vontade de ir ao WC e como não existia teve mesmo que recorrer a uma garrafa de água vazia. Acontece!

Depois de uma animada estadia em Mombaça voámos, num voo interno, para Nairobi, de onde sairíamos em direcção a Lisboa. A nossa ideia era despachar as bagagens logo em Mombaça e aproveitar a escala em Nairobi para fazer uma visita à cidade e jantar no Restaurante Carnivore – considerado um dos melhores do mundo e que só serve carnes de animais selvagens: avestruz, gazela, zebra, crocodilo etc. Não foi possível despachar a bagagem para Lisboa logo em Mombaça e tivemos que voltar a fazer tudo no aeroporto de Nairobi. Percebi, pela demora com que estavam a efectuar o check-in, que tínhamos umas largas horas pela frente até que todos tivessem terminado. Fui ter com o chefe de escala e disse-lhe que não podíamos demorar tanto a fazer o check-in, sob pena de perdermos ali todo o tempo que tínhamos para visitar a cidade e jantar. Ele não se mostrou muito interessado no assunto e disse-me de imediato que não podia abrir mais balcões nem tinha pessoal disponível. Percebi que o problema ficaria resolvido com uma nota de cem dólares que, sorrateiramente, lhe meti no bolso. Quase de forma automática, passámos a ter oito balcões de check-in só para nós e eu, que nunca tinha mexido no sistema informático do check-in, fui de balcão em balcão introduzir o apelido dos passageiros. A verdade é que eles estavam todos atrapalhados com a quantidade de apelidos que nós temos. Fiquei com a sensação que sabiam quase menos do que eu! Não houve excesso de bagagem para ninguém e em 30 minutos estava toda a gente despachada. Já sem malas e livres de mais procedimentos, fomos então para o centro de Nairobi onde ainda fizemos um pequeno passeio antes do jantar de despedida no famoso Carnivore. A qualidade e variedade dos pratos ali servidos era de facto excepcional, mas a animação ficou por conta das também maravilhosas caipirinhas ali servidas.

Passados três anos tive o prazer de poder regressar ao Quénia. O desafio partiu da agência de comunicação GCI. Pretendiam que eu organizasse uma viagem com imprensa para a marca de chá Lipton. O objectivo era visitar os campos de chá da província de Kericho, a norte de Nairobi, com uma componente mediática. Um dos meios de comunicação convidados foi a revista Caras, que por sua vez convidou a minha amiga Sofia Cerveira, apresentadora da SIC que na altura estava a trabalhar no Brasil a fazer o programa Caras Notícias. Além da imprensa da especialidade, connosco foi também uma equipa do programa Deluxe da TVI, liderada pela jornalista Mónica Jardim. Como muitas vezes faço, fui para Nairobi no dia anterior à chegada do grupo, para poder organizar a sua recepção no local. Por outro lado, pretendia também conhecer um hotel de charme que fica nas imediações da cidade – o Ngong House, considerado em 2009 pelo guia “Good Safari” o melhor hotel de África para safaris. Com apenas seis quartos todos em madeira, cada um é diferente do outro e alguns têm dois níveis, estilo mezzanine. Todos gozam de uma panorâmica ininterrupta sobre as Colinas Ngong. Neste pequeno lodge impera o conforto e a arte de bem receber por parte dos proprietários e dos próprios empregados.

No dia seguinte lá estava eu, com a Shaheen e com a Fareen, à espera do grupo. A Sofia Cerveira, que tinha voado directamente do Rio de Janeiro para Londres, e depois de quase 24 horas a voar, quase me bateu quando à chegada a Nairobi eu lhe disse que teríamos mais uma hora de voo até Kericho. Mas não havia nada que eu pudesse fazer para alterar esta situação, já estava tudo marcado. A província de Kericho, cuja capital tem o mesmo nome, fica localizada num planalto do Vale do Rift e abrange a maior área de captação de água do Quénia: a Floresta Mau. Ali produz-se o melhor chá do país, que é famoso pelo brilho, cor atraente, perfume intenso, sabor vigoroso e textura das folhas. Ficámos dois dias numa espécie de centro de formação da Unilever onde tivemos oportunidade de conhecer as verdadeiras essências e propriedades do chá e de visitar os campos de produção do mesmo. Fomos lindamente acolhidos pela equipa local da Companhia que nos conseguiu convencer que consumimos em nossas casas um produto de grande qualidade. Percebemos como o chá é cultivado, tratado e transformado até chegar aos postos de venda. Visitámos as fábricas e pudemos ainda perceber que as pessoas que ali trabalham, na sua maioria Kipsigis (assim se designam os habitantes de Kericho) são muito solícitas a explicar todos os passos do seu trabalho, mas nada dizem em relação à sua situação laboral, nem quanto ganham, nem que tipos de contrato têm, quantas horas por dia trabalham, etc. Na realidade estava ali um grupo de jornalistas que muito queria saber.

Foi uma experiência muito gratificante. Os campos eram lindíssimos, de um verde único e com um brilho fantástico. A Sofia dizia a certa altura que achava que eles até as folhas limpavam, porque tudo brilhava. Os carreiros das plantas de chá são de perder de vista, quais vinhas do nosso Alentejo.

No último dia, depois de termos visitado uma fábrica de selecção e secagem de folhas de chá, fomos cumprir o nosso dever para com o Planeta: a plantação de uma árvore em Kericho. A Sofia, com a desculpa de que não podia estragar as unhas, decidiu de imediato que seria eu a fazer a cova para a árvore dela. Entendido que sou na matéria, peguei na enxada e preparei duas covas para as nossas lindas árvores que ali ficaram plantadas e que de certo hoje devem estar bem crescidas!

Fomos depois passar mais dois dias a Masai Mara, onde ficámos alojados no Mara Intrepids Lodge. Para mim era a terceira visita àquela região, mas a Sofia estava excitadíssima para ir conhecer o povo Masai. Assim que soube que ia para o Quénia, começou a ler o livro “Casei com um Masai”, uma autobiografia de Corinne Hofmann – uma empresária suíça que numa visita àquela região se apaixonou por um homem Masai, com quem casou e viveu no Quénia durante quatro anos. Embora se tenham separado entretanto, ela continuou a apoiar financeiramente a família daquele grupo étnico.

Neste meu regresso a Masai Mara, a equipa do programa Deluxe conseguiu captar imagens raras da vida selvagem, nomeadamente, uma caçada de uma chita a uma gazela, digna de um programa da BBC Vida Selvagem ou do National Geographic. Claro que, justa e orgulhosamente, fizeram pompa das suas imagens que são, de facto, difíceis de conseguir. Há equipas especializadas que demoram semanas, e por vezes meses, para as captar. Durante os passeios pela reserva fomos encontrando, ali mesmo à nossa frente, a dois ou três metros de distância, famílias de leões, elefantes, leopardos, etc. Sentíamo-nos num autêntico Jardim Zoológico, sem redes nem grades, onde os animais se passeiam livremente sem que se incomodem com a presença dos jipes carregados de turistas. Para a Sofia foi o deslumbre total e para mim foi também muito enriquecedor porque desta vez vi animais que não tinha visto das outras vezes, como a chita, por exemplo, que nunca tinha conseguido ver.

A vontade de conhecer o povo Masai era tanta que preparei para o grupo, tal como já havia feito com o da NOVIS, um pequeno-almoço ao ar livre. Na manhã seguinte, saímos do hotel nos jipes pela alvorada, sem tempo para comer nada, com o objectivo de ir ver os hipopótamos junto ao rio Mara. À nossa espera estava uma farta mesa com um magnífico pequeno-almoço que encantou todos os presentes. Tudo o que poderíamos encontrar no hotel, tínhamos ali à beira do rio, rodeados de hipopótamos completamente inofensivos. É sempre uma experiência ímpar. Desta vez tinha contratado um grupo Masai para simular um assalto, enquanto todos tomavam o seu pequeno-almoço descansados. No início, com toda a gritaria que vinha do meio do mato, gerou-se alguma inquietação, mas depois perceberam que tudo era encenado e surgiu uma dinâmica muito engraçada entre nós e o “gang” Masai. Tirámos imensas fotografias, brincámos e divertimo-nos à grande.

Foi o primeiro contacto deste grupo com aquela etnia. O convite para visitar as suas aldeias surgiu prontamente, até porque a maioria sobrevive à custa do artesanato que vende aos turistas. Nós lá demos o nosso contributo e comprámos algumas peças feitas de coloridas missangas. Enquanto o grupo visitava a aldeia, eu acompanhei a equipa da Caras – o fotógrafo João Lima e a jornalista Inês Mestre – numa sessão fotográfica com a Sofia e alguns elementos Masai. Depois de concluído o trabalho fomos calmamente visitar a aldeia. Como era quase hora de almoço, encontrámos a maioria das mulheres a cozinhar. Ficámos impressionados com o facto de viverem e cozinharem naquelas casas feitas de bosta de vaca e canas. O fumo misturado com o cheiro do estrume é absolutamente insuportável. Depois da visita às casas, sentámo-nos os dois no chão para escutar o chefe da tribo, líder espiritual conhecido como “Laibon” (intermediário entre o Homem e o Deus Enkai, o único em que acreditam). Recordo que uma das coisas que nos contou foi precisamente a sua crença nesse Deus único Enkai (aquele que dá o gado, guardião da chuva, do Sol, da fertilidade, do amor e do conhecimento sobre as plantas), que se divide em duas pessoas: Enkai-Norok (o Deus negro e generoso da chuva) e Enkai-Manyocik (o Deus vermelho e malicioso da seca). Falou-nos da caça e das diferenças entre passado e presente. A força deste povo, conhecido como “Caçadores de Leões”, é visível nos seus olhos. Os jovens, em sinal de bravura, caçavam para suas futuras esposas. Hoje, essa é uma prática rara. A única coisa que se mantém é o método de caça: utilizam a lança e não o rifle ou a espingarda. Segundo as suas crenças, matar um animal sem razão alguma é violar o sagrado e atrair o castigo divino. Falou-nos ainda das principais cerimónias que ainda praticam: a circuncisão e o casamento. Achámos curioso o facto de que para que possam casar, as mulheres devem estar solteiras e grávidas. Dessa forma o homem pode escolher a que mais lhe agradar, desenhando na barriga da escolhida um X vermelho (cor que sempre usam no seu vestuário). A mulher não pode recusar o pedido, mas caso o faça, é simplesmente mandada embora de sua própria casa e abandonada pela família. A mulher só pode casar uma única vez na vida, já os homens podem ter quantas esposas desejarem e em simultâneo, tudo depende do número de vacas suficiente para cada dote (no mínimo o homem tem que entregar 10 vacas ao pai da noiva). Ensinaram-nos as suas danças masculinas, que para eles é um sinal de virilidade: quem salta mais alto tem mais esposas. Tentámos, mas não conseguimos saltar tão alto quanto eles! Percebemos que lutam bastante pela preservação das suas tradições ancestrais e culturais. Talvez por isso mesmo sejam um dos grupos étnicos mais conhecidos internacionalmente.

 

Conhecer um pouco da cultura e dos costumQuenia---Crianca África deve ser a região do mundo onde existe a maior variedade de costumes considerados exóticos aos nossos olhos.

Para despedida fizemos uma champagne party ao pôr-do-sol, com cocktail e tudo. Não faltou nada. Os próprios jipes já iam preparados com geleiras, canapés, garrafas de champanhe, etc. Tudo funcionou na perfeição. Em Masai Mara, o pôr-do-sol é realmente imperdível e marcante. É habitual ouvir as pessoas que viveram em África, ou que simplesmente passaram por lá, dizerem que há duas coisas que ficam para sempre na memória: o pôr-do-sol e o cheiro da terra molhada. Tivemos oportunidade de confirmar esta afirmação. Nessa última tarde choveu e pudemos sentir o intenso odor que a terra emana. O pôr-do-sol, esse, superou-se todos os dias. Parecia encomendado. A verdade é que tudo ali nos reporta para o filme Out of África (África Minha) de Sydney Pollack. E não é por acaso. Muitas das cenas foram filmadas por aquelas bandas, há 25 anos. Quem não se recorda do voo inicial de Meryl Streep e Robert Redford, a bordo de uma avioneta que sobrevoa um imenso lago cor-de-rosa repleto de flamingos? O Lago Nakuru ficaria para sempre celebrizado e na minha memória também.

 

Marcante, em todas estas viagens que fiz ao Quénia, foi, entre tantas outras coisas, o convívio com as pessoas e o carinho com que nos receberam. Tenho o vício de pedir constantemente aos motoristas para pararem a fim de fotografar pessoas. Por norma, agradeço a gentileza de me deixarem gravar os seus rostos com um mimo, sobretudo no que toca às crianças. Nestas viagens vou sempre carregado de canetas, blocos e outro material escolar que deixa os mais novos felicíssimos. O que na realidade lhes falta, a nós sobeja-nos. Compensa-me o sorriso nos lábios, sempre presente em todos os rostos.

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